Ivan Pan

Coisas que passam

  Mostrou-se calmo e determinado ao sair do recinto, de mochila nas costas. Tinha ouvido falar do local, mas era a primeira e última vez que o visitaria. Caminhou pela rua da República em direção ao ponto de táxi. Alguém dentro do bar poderia tê-lo visto passar aquilo, mas por alguma razão que não entendeu, isso não lhe preocupava naquele momento. Pensou que fosse arrotar e se deteve apoiando a mão direita na fachada de um prédio. Não foi assim. Havia bem mais do que gazes de fermentação na barriga. Quase tudo que tinha dentro dela acabou deixando na calçada, junto à raiz de um jacarandá. A árvore, acostumada com o mijo dos cães da Cidade Baixa e da freguesia dos bares, recebeu a desgraceira toda de uma vez só. Após alguns instantes começou a se sentir melhor e retomou a caminhada. Ao chegar na José do Patrocínio se deteve, rodopiou, ficou um pouco indeciso em entrar no Gol alaranjado que encabeçava a fila de taxis, por medo de passar mal. Olhou no visor do celular; esperou uns cinco minutos e voltou a olhar: três e meia da manhã; a noitada estava de bom tamanho, mas sentia-a como se estivesse inacabada. Entrou na parte traseira do carro e, sem dar a boa noite, gaguejou um endereço. O táxi foi embora.

  Se via a si mesmo como um homem escrupuloso, comedido, inclusive na boemia. Que tinha certa dificuldade para manter a seriedade quando bebia além da conta, o que lhe acontecia com bastante freqüência, mas era um cara razoável. Quando estava bêbado ficava rindo, achando graça em tudo que via ou dizia. Mas não era chato nem inconveniente, como muitos. Certa vez, é verdade, se incomodou com um freguês da lanchonete, na esquina da sua casa, e engrossou um pouco seu comportamento, insultando-o. Mas no fim tudo não passou de um mal-entendido.  

  Aqueles que lhe conheciam concordavam em afirmar que ele era um rapaz “gente boa”. Que mostrava uma  certa dificuldade de comunicação, sim,  que o tornava as vezes um pouco, como dizer...exasperado na sua forma de agir. Podia até parecer agressivo, mas nunca ninguém o tinha visto levantar a voz, arrumar uma encrenca, muito menos machucar alguém. Ele que se machucava, isso sim. Aquelas coisas que acrescentava às bebidas, que tantas vezes, ele sabia, o tinham jogado na sarjeta. Mas era um bom tipo. A gente é legal! Gostava de ouvir dizer de um amigo.

  Aos poucos ia reagindo à borracheira. Quando o taxi se deteve na frente de um prédio amarelo, sem grades, teve um sobressalto. O motorista olhou para o taxímetro, rotineiro, girou levemente a cabeça e comunicou o valor da corrida, despreocupado, como se o fizesse a um passageiro invisível que estivesse viajando na frente. Hesitou. Inevitavelmente lembrou do que levava consigo. Lembrou também do rostro da moça pedindo licença para ir ao banheiro, como se fosse necessário. Das sobrancelhas despovoadas e beiços masculinos, de sua feição inquietante. Reviveu, na lembrança dos gestos dela, todas as atitudes suspeitas, cada risada desnecessária ou artificial, que sempre concluía abruptamente e fechando o rosto numa careta  híbrida, bizarra. Essa  boca andrógena articulando com exagero, pronunciando em forma burlesca, emitindo palavras que tinham perdido o sentido, que tinham se tornado tão só sons. Sons que o martelavam na boca do estômago.  Estremeceu. Um arrepio lhe percorreu dos pés à cabeça e, arregalando os olhos, enfiou a mão direita na mochila e fuçou até encontrar aquele frio de aço gelado que o acompanhava quando executava serviços dessa índole. O contato com o revolver lhe trouxe uma calma melancólica, quase uma tristeza. Sentiu que poderia matar o motorista, que já nada mudaria. Pegou  o troco da mão dele e desceu.

  Bobagem, essas pessoas reinventando suas vidas todas as noites, pensou. Bobagem, esses seres inventados reassumindo as mesmas posturas diante dos mesmos entraves, refazendo os mesmos discursos ridículos, se inocentando da responsabilidade que os julga todas as manhãs. Essas bocas com seus narizes insatisfeitos,  despejando palavras farinhentas sem nenhuma importância, bocas de vampiros que sugam ao avesso. Bobagens. Também pensou que apesar do que imaginavam seus vizinhos e amigos, agora sabia perfeitamente o que devia fazer. Olhou o carro dar meia volta e desaparecer. Baixou a cabeça e caminhou até a porta do prédio ao mesmo tempo que puxava um molho de chaves. Abriu a fechadura da porta com uma delas, girou a maçaneta empurrando a porta com suavidade e avançou. Após entrar no saguão selecionou outra das chaves segurando-a entre o polegar e o índice e entrou no edifício. Foi até o final do corredor e subiu a escada até o terceiro andar, sem ascender as luzes. Abriu a porta do apartamento 312, ascendeu a luz da sala apertando levemente sobre o interruptor a sua direita; e voltou a fechar a porta detrás de si. Pouco depois ouviria-se um disparo que iria acordar todos os vizinhos do terceiro andar e muitos dos que residiam nos andares de baixo e de cima respectivamente.  Muitas histórias falaciosas iriam circular pelos corredores do prédio durante as semanas que viriam. Alguns mitos urbanos seriam renovados na especulação dos que o tinham conhecido. Poucos iriam sentir sua falta. Ninguém relacionaria sua pessoa com uma daquelas mortes que as páginas policiais, de algum que outro jornal, iriam anunciar.  


Ivan Pan
Matemático, professor da URFGS,
Uruguaio, vez ou outra,
escreve canções em francês

Foto:
Andres Abella

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