José Edi Nunes da Silva
Encontro mensal com meu associado Moah no Muffuletta, um café elegante na Cidade Baixa - bairro que é o coração boêmio da capital dos gaúchos. Por razões financeiras, freqüentamos o estabelecimento somente no dia do pagamento. Pedimos o de sempre; bourbon do Kentucky para ele e Jack Daniel´s do Tennessee para mim. Ambos duplos, com duas pedras de gelo redondas. Brindamos.
- A nós.
- E elas – acrescento.
Sem delonga, vou direto aos negócios.
- Falou com o Chefe? A grana vai sair?
- Falei. Disse que aumento agora não dá. Talvez em junho.
- Puta merda. Não vou mais sair de casa. Soube que alguns credores estão pensando em espalhar cartazes com a minha foto: Procurado por inadimplência.
- Hehehe, estou na mesma situação. Só como miojo e sanduíche de salame com queijo. Não tá dando pra comprar nem um presuntinho. Fiz um gato na ligação de luz e aposentei o celular. Só estou em dia com as pensões. Não quero ser preso.
Vida dura.
- E o livro? – indago.
- Está tudo aqui – aponta o dedo indicador da mão direita para a cabeça –, mas não dá pra fazer literatura pensando em pagar a conta do mercadinho.
- Balzac conseguia. Escrevia sob pressão para pagar o padeiro e o açougueiro. Fitzgerald quando queria grana pra fazer festa vendia um conto. Ele e a Zelda eram muito loucos. Uma vez deram uma baita festa e colocaram um cartaz na porta da adega: é proibido acessar a porta da adega em busca de mais bebida, mesmo que autorizado pelos donos. Assinado: Zelda e F. Scott Fitzgerald.
- Hehehe, malucos. Mas hoje não tem mais revistas literárias, ninguém mais compra. A internet dá tudo de graça. O mundo mudou pra pior.
Taciturnos, bebemos.

- E tu, escrevendo muito?
- Só o essencial para sobreviver – respondo –, na maioria
sacanagem.
- Faz um livro:
histórias pornográficas. - Sei não, a sacanagem perdeu o encanto. Difícil concorrer com a tevê.
- Hehehe, sacanagem é bom de fazer.
- Bem que estou precisando...
-
Tá no atraso? - Ô, nem me fala...
- Falando, nisto, olha ali à esquerda, discretamente.
Com a discrição que me é peculiar, encaro duas
Deusas recém egressas do Olimpo que se acomodam na mesa ao lado. Faço uma observação elegante, como é meu estilo:
-
Porra, que bonitonas. Pernudas. Meu associado igualmente se entusiasma com a visão.
- Bah, olha aquela morena. Que boca!
O coração bate acelerado. - Porra, acho que vou ter um troço.
Liga pro SAMU. - Vamos encarar?
- Vamos! Antes, porém, concordamos que precisamos de mais uma descarga de estimulante para lubrificar as conexões neurais.
Pedimos mais uma rodada. A noite promete. O
SAMU está de prontidão.
A vida é bela.
José Edi Nunes da Silva
jornalista, responsável pelo jornal Marca da Cal,
titular do Blog tocadojens.zip.net,
costuma dizer que enxerga a vida com o velho Jack Daniel's
Fotos
Moah Sousa