Meu poema é liberto, assimétrico, anárquico, rima ao acaso, é poema vadio, desarrumado, amarfanhado. É assim que eu vejo o mundo. 
Se eu fosse o Lula,
numa Medida Provisória permanente,
por via conseqüente,
instituiria, por mês,
um Natal candente,
mas sem presente.
Um Natal incondicional
de troca de abraços,
beijos, segredos,
e de confissões mútuas,
de perdão geral, total.
Se eu fosse o Lula
decretaria:
janeiro, 25, projetar sonhos loucos,
sem guerra, sem fome;
fevereiro, 25, cantar para deus Sol,
mesmo sem saber cantar;
março, 25, cumprimentar vizinhos
carrancudos, mal-amados;
abril, 25, tomar banho de Lua
ouvindo música brasileira;
maio, 25, vestir uma mãe favelada
e rezar uma Ave Maria;
junho, 25, fazer uma fogueira
e dançar uma dança afro;
julho, 25, agasalhar
aos desarmados contra o frio;
agosto, 25, ler um poema
para quem não sabe ler;
setembro, 25, oferecer uma rosa
para uma prostituta pobre;
outubro, 25,abraçar uma árvore,
tomar banho nu, no mar, nos rios;
novembro, 25, tirar uma velhinha,
um velhinho e dançar de rosto colado;
E assim seriam onze Natais
com Cristo presente...
Dezembro, 25, deixar rolar
a alegria dos shoppings,
dos supermercados e dos bancos...
Ah!, se eu fosse o Lula...
Iguais
Aqui da minha torre, como um humilde marquês, todos os dias, tento descobrir os segredos dos escaninhos de um universo árido e amargo. Andejo dos becos da sarjeta aos salões da Justiça e, sem raridade, vejo, nos dois extremos, figurantes com princípios iguais. Em cada nova cena deste espetáculo imprevisível somente é possível ver que o leão nasce e morre leão, como acontece com a cobra, que nunca deixa de ser cobra.
A criatura humana, no entanto, traz, dentro de si, os instintos do cordeiro e da víbora. Nesta moldura, durante as festas religiosas – e, para os cristãos, o Natal é a comemoração maior – a idéia é a de que todos nós somos cordeiros irmãos. Trata-se, este momento, de um delicioso desejo e uma bem desenhada ficção. Valendo-me, então, deste hiato na aridez e na amargura do universo em que, a cada dia, vasculho, tento controlar, em mim, o cordeiro e a víbora e, sendo uma criatura comum, deixo aqui o meu poema e a mensagem de um Feliz Natal a todos os meus iguais.
Wanderley Soares
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Ilustrações: Augusto Frank Bier
Jornal O Sul, 24 de dezembro de 2009, Porto Alegre.