Acredito que ainda existem pessoas que portam, como arma poderosa, versos bem decorados.
As pessoas têm um jeito próprio de se vestir. É o que se chama de estilo. Há quem nunca consegue se vestir adequadamente, por mais posses que tenha alcançado. No entanto, é comum um andarilho, um morador de rua ser reconhecido, à distância, pela coerência de seus andrajos. Aqui, neste caderno, cada colunista de O Sul tem seu modo de se expressar, tem uma forma característica de vestir o seu texto. Este humilde marquês não é diferente.
Circulo com uma certa liberdade entre os meus coleguinhas e não posso negar que, vez por outra, sou reconhecido, de longe, pelos meus andrajos. Todavia, hoje, como aconteceu no Natal, coloco uma roupa antiga, com aquele cheirinho de naftalina, para falar de um desejo antigo e permanente, que é o de um feliz Ano Novo para todos os que me acompanham, inclusive para os que me processam.
A fachada de dezembro
Todos os meses do ano tem uma cara própria. E cada cara é como um óleo brotado da espátula de um gênio. É só uma, mas todos os dias, para todas as pessoas, é diferente. É como a chama das emoções mais fortes – o amor, o ódio, a saudade – que, como grandes incêndios, tomam mil formas e são sempre as mesmas. No entanto, tenho para mim, que, do janeiro a novembro, nenhum mês nunca terá o perfil, as cores, a expressão, o misticismo de dezembro.
Parece-me que os olhos de dezembro dizem coisas mais claras que os olhos dos outros meses. Diante e dentro dele, podemos lembrar onde e com quem estávamos há, exatamente, dez anos. É possível até que nos venha na mente, com clareza, os nossos dezembros de criança. Nele, não é difícil reviver e dialogar com os nossos finais de ano. E é tão envolvente quanto estranha a grandeza de um reencontro em dezembro, que tem o perfume saboroso do renascimento. Mas, também, nada mais patético do que uma perda, uma despedida em dezembro.
Entre labirintos e sorrisos
Como mortal comum que sou, analiso a cara de dezembro em busca dos seus segredos. É um exercício que recomendo aos amigos mais introspectivos. De certa forma não são inexploráveis os labirintos que nos levam a saber porque essa cara não assusta, embora, por vezes, nos conduza à nostalgia. Dezembro tem a cara de uma criatura decente, um toque um tanto ingênuo e a maturidade de quem sabe, com ninguém sorrir sem falsidade.
Dezembro é fato consumado. Todos os que nele vivem já não aguardam surpresas. Ele é resumo, é princípio e fim de tudo o que foi vivido. Não é uma esperança. É uma realização. É mulher bem-amada, livre e fiel. É um homem que usa brinco, dança rock e vanerão, veste bombachas e, como arma mais poderosa, carrega um verso bem decorado e um olhar rico de suas verdades, sem temor nem inveja das verdades vizinhas. Dezembro está muito distante da cara lavada do prostituto janeiro. Mas isso é outra história, que só poderá ser contada depois do milagre de dezembro passar.