Nesta terça-feira, 19, entre futebol, carnaval e algumas dezenas de mortos, não pode ser outra a minha mensagem a não ser a daqueles que se perdem, pacificamente, entre os foliões do mundo.
Vestia uma de suas fantasias. Eram tantas que não as entendia como fantasias. Percorrera planícies e abismos, pessoas e bichos, casas e nichos. Seu presente era, a um tempo só, passado e futuro. Não era temente, mas confiava em Deus, de quem guardava uma vaga idéia. Do Diabo, de quem esteve perto, algumas vezes, alimentava restrições, até mesmo por se achar parecido com ele. Um pequeno saco de lona, descolorido pelo tempo e pelas viagens, era a sua única bagagem. Ele a mantinha sob um braço, como dono e guardião de seu tesouro. Usava uma bengala por charme ou, talvez, à guisa de arma.
A tarde estava quente e ele errava pela cidade com a sua arma e a sua bagagem, em busca de um destino incerto. Sua fantasia não chamava atenção. Era um terno escuro, camisa branca, gravata listrada, sapatos e meias pretas. No cabeleira vasta já apareciam algumas cãs. Numa esquina, num bar, deparou-se com um movimento mais intenso de pessoas que, foi fácil notar, como ele, estavam ali para vadiar. O bar tinha várias portas, o que facilitava o entre-e-sai da pequena multidão. Entrou. Havia alegria e, por vezes, algazarra. Num canto, alguém começou a tocar violão. Uma mulher ergueu um copo em triunfo e cantou um samba-canção.
Lembrou de outras festas em terras e tempos diferentes. Festejos profanos, místicos, patrióticos. O ateu, o pagão, o iconoclasta, o agnóstico, o político seboso, estão presentes em todas essas efemérides enfiados em fantasias e dançando as danças que os cerimoniais exigem. Conheceu aqueles que fogem e se recolhem em clausuras para contatos mais íntimos com as suas divindades. E em cada rosto, em cada uma dessas criaturas, em cada uma dessas fantasias, encontrava a si mesmo. Na sua obsessão, se via diante de um espelho mágico que lhe mostrava todas as suas formas, das que o sublimavam até as mais primitivas, bárbaras.
E agora, ali estava ele em mais uma viagem. De pé, junto ao balcão, tomando uma cerveja e beliscando queijinho picado, vendo a multidão de seus pedaços aumentar. Já não era apenas o violão. Outros músicos e instrumentos apareceram. As muitas portas do bar não davam conta do entre-e-sai. As pessoas passavam se roçando com garrafas de cerveja e copos nas mãos. Alguns queriam proximidade com os músicos, outros buscavam mesas na calçada. Era carnaval. Dali iria sair uma banda anárquica com jeito de bloco de sujos. A Banda de K, sem diretoria, sem diretoria. E quando a banda saiu, ele também saiu. Tirou de sua bagagem – e vestiu sobre o traje preto – um imenso vestido de baiana. E se perdeu entre os foliões do mundo.
Wanderley Soares,Jornalista e escritor.Texto publicado no jornal O Sul, 16/02/2010Fotos. Reprodução Web