Em homenagem a tudo o que possa estar encoberto pelo frio que penetra nas roupas e nos ossos dos caminhantes da noite, da minha torre gelada, ofereço uma reflexão antiga.
Creio que os ruídos da noite, mais do que aqueles que nos invadem durante o dia, ferem e acalentam com intensidade maior. É a noite que abriga nossos sonhos e nossa solidão, nossas esperanças e nossas frustrações mais íntimas. É na noite que ocultamos nossas fugas e é onde se aninha a lágrima que mentimos nunca ter existido. Para os boêmios, para os trabalhadores noturnos, pássaros sem medo de sombras nem de encruzilhadas, a chegada da noite é sempre como uma viagem no cosmo, longe da nave-mãe. É bela e letal.
A noite é sempre bela e letal. Para viver em todas as suas áreas geladas ou sob o calor tênue de suas luzes, ninguém conseguirá, nunca, fugir de uma iniciação plena de pequenos segredos, desde a chama satã que brota dos olhos de um felino, até o encontro de um corpo de mulher, ainda quente, abandonado como resto de uma liça sem testemunhas. É preciso conhecer linguagens cifradas, desde aquela falada pelos que só conhecem os primeiros momentos depois do pôr-do-sol, até a dos libelos contra o alvorecer.
Nos movimentos que se possam fazer nesse cosmo, a atenção de cada instante não deve se perder nas cores das ruas, das praças ou do casario. É preciso atentar para todos os sinais de vida, como o do ladrar dos cães que denunciam vultos estranhos. É preciso atentar para os ruídos de passos para saber quando alguém se vai, quando alguém retorna ou se são, simplesmente, os passos dos nossos fantasmas. É preciso nesses movimentos percorrer todas as vozes da noite e ouvir, de perto, os sons de todos os olhos.
As legiões que invadem a noite, estejam a viver a iniciação ou mesmo iniciadas em todos os seus segredos, chegam com uma esperança insólita na alma. Todas aguardam luz, muita luz ao amanhecer. A luz no seu sentido mais amplo, mais profundo. Os artistas, os obscuros copeiros, os bandidos ocultos, os garçons, os barrigudos donos dos bares, os lixeiros suados, todos têm esperanças. Há neles uma alegria que passa ligeira e que termina num dia que não existirá. E tudo recomeça quando a noite volta.
Creio que todos nós estamos nas legiões dos invasores da noite. Não consigo ainda alcançar se somos iniciados ou se estamos ainda com nossos passos perdidos. Parece-me que ainda não entendemos todos os ruídos. Mesmo assim, em cada noite, a insólita esperança renasce. Uma esperança de cor mórbida, se as últimas madrugadas foram longas e povoadas de tumultos, de pesadelos. Uma esperança de plena de luz, quando o último amanhecer foi de uma brisa terna, amiga. Mas nada muda o primeiro mistério. A noite é bela e letal.
Texto: Wanderley SoaresColuna - O Sul Porto Alegre - 18/07/10Fotos: Arquivo Muffu