Memórias em pedaços
Luiz Gomes de Mascar
Memórias em pedaços
Nessa coluna sobre livros no site do café Muffuletta, não posso deixar de lembrar a noite em que terminei de beber um livro e que o joguei na sarjeta da Oswaldo Aranha, quase em frente da Lancheria do Parque. Isso por volta de 1987 do século XX, O Estrangeiro de Camus. Uma noite de chuva torrencial. Aquela edição que tinha umas 15 páginas só de apresentação de Sartre. Se foi na água da chuva. Rasguei, despedacei em tantos pedaços que o tempo não me fez esquecer. Despedaçamos nossas memórias, mas jamais deixamos de lembrar as leituras.
Se no século I depois de Cristo o papiro tinha seu lugar na indústria do livro, depois desse tempo todo, foi preciso muita luta para termos o livro ainda vivo. As guerras, a intolerância religiosa, a escritura dogmática, a palavra que a lógica expressava a verdade dos olhos, o tempo da dúvida e a certeza enlouquecida das ideologias, nenhuma, ninguém acabou com o livro. Por isso, estou aqui lendo a poesia de Paul Celan, o sexo pelos olhos de Bataille, e toda musicalidade no ar que só uma leitura nos proporciona.
Luis Gomes de MascarDoutor em Comunicação Social e editor da SulinaFoto: Arquivo Pessoal Colunas anterioresFragmentos em livros >> 17 de Julho de 2008